30 de setembro de 2026
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15 anos após Massacre de Realengo, debate sobre motivações do ataque inclui misoginia e radicalização online

 15 anos após Massacre de Realengo, debate sobre motivações do ataque inclui misoginia e radicalização online

Foto: Reprodução

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Quinze anos depois do ataque à Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona norte do Rio de Janeiro, o episódio segue como um dos mais marcantes casos de violência escolar no Brasil e ainda levanta discussões sobre suas causas. Em 7 de abril de 2011, um ex-aluno invadiu a unidade armado, matou 12 estudantes — com idades entre 13 e 15 anos —, deixou outros feridos e morreu após ser atingido por policiais.

Na época, a principal linha de interpretação apontava o bullying sofrido pelo autor durante o período em que estudou na escola como fator determinante para o crime. A repercussão levou, anos depois, à criação do Dia Nacional de Combate ao Bullying, instituído pela Lei 13.277/2016, celebrada na mesma data do ataque.

Com o passar dos anos, no entanto, outras análises passaram a ganhar espaço. Pesquisadoras e ativistas defendem que aspectos ligados à misoginia — caracterizada pelo desprezo e hostilidade contra mulheres — não receberam a devida atenção no debate público. Um dos elementos citados é o perfil das vítimas: entre os mortos, dez eram meninas e dois, meninos.

Relatos de testemunhas e conteúdos deixados pelo autor, como vídeos e uma carta, também são apontados como indícios de que o ataque pode ter sido direcionado de forma diferente conforme o gênero das vítimas. Segundo essas análises, há sinais de que o agressor apresentava discursos alinhados a comunidades online marcadas por ressentimento e rejeição social, especialmente em relação às mulheres.

A professora e pesquisadora Lola Aronovich afirma que interpretações iniciais sobre o caso ignoraram evidências importantes. Ela destaca que, à época, explicações superficiais foram usadas para justificar o maior número de vítimas do sexo feminino, enquanto relatos indicavam uma possível intencionalidade nos ataques.

Estudos sobre violência escolar no país reforçam a necessidade de ampliar o olhar sobre esses episódios. A pesquisadora Cleo Garcia, doutora pela Universidade Estadual de Campinas, mapeou dezenas de ataques em escolas brasileiras nas últimas décadas, com aumento significativo recente. De acordo com o levantamento, todos os autores identificados são homens.

Segundo Garcia, esses casos costumam estar associados a discursos de ódio, como misoginia e racismo, além da influência de grupos extremistas. Ela ressalta o papel das comunidades virtuais na amplificação de frustrações e no fortalecimento de visões distorcidas da realidade, nas quais jovens passam a se enxergar como vítimas de injustiças sociais.

Especialistas apontam que fatores individuais, como baixa tolerância à frustração e dificuldade em lidar com rejeições, podem ser potencializados por contextos sociais e culturais. Modelos de masculinidade baseados na agressividade, competição e dominação também são citados como elementos que contribuem para processos de radicalização.

Para estudiosos do tema, o enfrentamento da violência escolar passa por ações integradas. O ambiente escolar é considerado essencial para o desenvolvimento emocional dos jovens, mas não pode atuar de forma isolada. A aproximação entre famílias e escolas, além da criação de espaços seguros de escuta para estudantes, é vista como parte da solução.

Também são apontadas a necessidade de investimentos em saúde mental, assistência social e estrutura educacional, além de capacitação de profissionais para lidar com temas como gênero, convivência e uso da internet.

Outro ponto destacado é o papel das plataformas digitais. Pesquisadores defendem maior responsabilização dessas empresas na moderação de conteúdos que incentivam ódio e violência, bem como o fortalecimento de políticas de prevenção e monitoramento.

Mais de uma década depois, o caso de Realengo permanece como um alerta sobre a complexidade da violência em ambientes escolares e sobre a importância de compreender suas múltiplas causas para evitar novas tragédias.

Por Paraíba Master

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