Brasil precisa dobrar investimentos em infraestrutura para reduzir déficit histórico, aponta CNI
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O Brasil precisa elevar de forma significativa os investimentos em infraestrutura para enfrentar o déficit acumulado no setor e alcançar níveis mais próximos dos registrados internacionalmente. A avaliação consta de um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que defende mudanças no modelo de financiamento para ampliar a participação da iniciativa privada e garantir recursos para projetos de longo prazo.
De acordo com o levantamento Financiamento dos Investimentos em Infraestrutura no Brasil, o país destinou R$ 266,8 bilhões à infraestrutura em 2024, o equivalente a 2,27% do Produto Interno Bruto (PIB). Para suprir as necessidades do setor, a CNI estima que seria necessário investir cerca de R$ 550 bilhões por ano, ou 4,65% do PIB, durante pelo menos 20 anos.
Setor privado já responde pela maior parte
A iniciativa privada foi responsável pela maior parcela dos investimentos realizados em 2024. Do total aplicado, R$ 188,1 bilhões, correspondentes a 70,5%, tiveram origem em empresas e investidores privados. Os aportes públicos somaram R$ 78,6 bilhões, com estados e municípios concentrando a maior parte desses recursos.
O estudo aponta ainda uma transformação significativa na estrutura de financiamento da infraestrutura brasileira ao longo dos últimos anos. Entre 2010 e 2014, os recursos privados representavam, em média, 29,3% do total. Em 2024, essa participação chegou a 61,5%.
Considerando valores corrigidos para 2024, os investimentos privados passaram de uma média anual de R$ 88,6 bilhões no período de 2010 a 2014 para R$ 184,5 bilhões em 2024. Já os recursos públicos recuaram de R$ 208,5 bilhões para R$ 107 bilhões no mesmo intervalo.
As instituições multilaterais contribuíram com R$ 8,4 bilhões para os investimentos em infraestrutura no ano passado.
CNI defende novo modelo de financiamento
Para a entidade, o volume necessário de recursos não poderá ser alcançado por uma única fonte de financiamento. A proposta é combinar investimentos públicos e privados, fortalecer o mercado de capitais e ampliar mecanismos capazes de viabilizar projetos com prazos mais longos de retorno.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, considera que a atração de capital privado depende de um ambiente econômico e institucional mais previsível. Entre os fatores apontados estão responsabilidade fiscal, segurança jurídica e instituições estáveis.
A entidade também defende que a modernização da infraestrutura seja tratada como uma política de Estado, e não como uma agenda restrita a um único governo. A avaliação é de que projetos dessa natureza exigem planejamento contínuo e investimentos mantidos por vários ciclos administrativos.
Medidas para ampliar investimentos
Entre as propostas apresentadas pela CNI estão o fortalecimento da estabilidade macroeconômica e fiscal, com o objetivo de diminuir riscos e custos de financiamento, e a ampliação do mercado de capitais, especialmente por meio da participação de investidores institucionais.
O estudo também recomenda a expansão do crédito privado, com mecanismos capazes de distribuir melhor os riscos dos projetos, além da formação de uma carteira mais ampla de empreendimentos estruturados para concessões e parcerias.
A CNI considera ainda fundamental aumentar a segurança jurídica, garantir maior previsibilidade nas regras regulatórias e preservar a autonomia técnica das agências responsáveis pela regulação dos serviços de infraestrutura.
Papel do BNDES
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e outras instituições públicas de desenvolvimento também aparecem como peças importantes no modelo proposto.
Segundo o estudo, essas instituições podem contribuir para reduzir riscos, apoiar a estruturação de projetos e criar condições para que recursos privados sejam direcionados a empreendimentos de infraestrutura.
A lógica defendida pela CNI é que o dinheiro público tenha maior capacidade de atrair investimentos particulares. Nesse modelo, o Estado continuaria exercendo papel relevante, mas seus recursos seriam utilizados de maneira estratégica para ampliar o volume total de capital destinado ao setor.
Experiências internacionais
A CNI analisou modelos adotados por países como Reino Unido, Chile, Austrália, México, Espanha, Índia e França. Embora as estruturas de financiamento sejam diferentes entre essas nações, o estudo identificou características comuns nos países que conseguiram ampliar os investimentos em infraestrutura.
Entre elas estão estabilidade econômica, instituições confiáveis, regras regulatórias previsíveis, mercados de capitais desenvolvidos e instrumentos de financiamento capazes de sustentar projetos de longo prazo.
Para a CNI, o Brasil precisa avançar nessa direção para superar o déficit histórico de infraestrutura. A avaliação é de que a combinação entre recursos públicos, capital privado e mecanismos de financiamento de longo prazo será essencial para elevar os investimentos ao patamar necessário nas próximas décadas.
Por Paraíba Master