1 de outubro de 2026
Abrir Player em Nova Janela

Especialistas veem Pix como fator estratégico em investigação dos EUA e debate sobre soberania financeira

 Especialistas veem Pix como fator estratégico em investigação dos EUA e debate sobre soberania financeira

Foto: Reprodução

#Compartilhe

A inclusão do Pix entre os temas analisados pelo governo dos Estados Unidos na investigação comercial contra o Brasil reacendeu o debate sobre soberania financeira e geopolítica. Para especialistas em economia e relações internacionais, a questão vai além da concorrência entre empresas de meios de pagamento e reflete uma disputa por influência sobre as infraestruturas financeiras globais.

Na avaliação do professor de Economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, o avanço do Pix representa uma redução da dependência brasileira de sistemas internacionais controlados por empresas estrangeiras. Segundo ele, esse processo pode diminuir a capacidade dos Estados Unidos de exercer influência sobre transações financeiras em outros países.

O economista compara o cenário brasileiro ao da China, que desenvolveu plataformas próprias de pagamentos eletrônicos e reduziu a dependência de redes internacionais. Para Silva, iniciativas desse tipo fortalecem a autonomia econômica e ampliam a capacidade de cada país de administrar seu sistema financeiro.

Além da questão geopolítica, o professor destaca que o Pix impulsionou a inclusão financeira no Brasil. Com a digitalização de operações que antes eram realizadas exclusivamente em dinheiro, mais pessoas passaram a utilizar serviços bancários, o que também favoreceu o mercado de cartões de crédito.

Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) mostram que, em 2025, as transações realizadas por cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões, crescimento de 10,1% em relação ao ano anterior, desempenho registrado paralelamente à expansão do Pix.

Tarifaço e interesses estratégicos

Silva afirma que, considerando o superávit comercial dos Estados Unidos nas trocas com o Brasil, a adoção de tarifas pode gerar impactos também para empresas norte-americanas. Na avaliação dele, isso demonstra que interesses estratégicos e geopolíticos podem prevalecer sobre ganhos econômicos imediatos.

Segundo o professor, medidas comerciais e sanções econômicas têm sido utilizadas por Washington como instrumentos de pressão internacional, buscando ampliar sua capacidade de influência sobre outros países.

Pix amplia autonomia financeira

O professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, avalia que o Pix passou a representar um ativo estratégico para o Brasil ao fortalecer a autonomia do sistema financeiro nacional.

Na visão do especialista, a expansão de mecanismos próprios de pagamento pode facilitar transações internacionais em moedas locais, reduzindo a dependência do dólar em determinadas operações comerciais entre países.

Carmona também destaca que o Banco Central brasileiro mantém acordos de cooperação técnica com dezenas de países interessados em desenvolver sistemas de pagamento inspirados no modelo brasileiro, o que pode ampliar a presença desse tipo de tecnologia em diferentes mercados.

Sistemas nacionais e sanções

Outro ponto levantado pelos especialistas é a relação entre sistemas nacionais de pagamentos e a aplicação de sanções econômicas. Segundo Carmona, plataformas controladas pelos próprios países tendem a reduzir a dependência de redes sediadas nos Estados Unidos, que normalmente seguem as determinações do governo norte-americano em casos de restrições financeiras.

Maicon Cláudio da Silva cita como exemplos as sanções impostas pelos Estados Unidos contra Cuba e medidas direcionadas a autoridades estrangeiras, argumentando que o controle sobre meios de pagamento amplia o alcance dessas ações.

Europa também busca alternativas

O debate sobre soberania financeira não se limita ao Brasil. Em artigo recente, a revista britânica The Economist destacou que iniciativas como o Pix e novos sistemas públicos de pagamentos desenvolvidos na Europa podem reduzir a predominância das grandes redes internacionais de cartões.

A União Europeia trabalha no desenvolvimento do Euro Digital, projeto conduzido pelo Banco Central Europeu (BCE), com previsão de testes a partir de 2027.

A presidente do BCE, Christine Lagarde, já declarou que o objetivo da iniciativa é diminuir a dependência de sistemas estrangeiros para processar pagamentos eletrônicos, fortalecendo a autonomia financeira do bloco europeu. Segundo ela, a criação de uma infraestrutura própria é considerada estratégica para ampliar a soberania da Europa nesse setor.

Por Paraíba Master

Relacionados