JK foi assassinado, e tudo muda depois de décadas; Entenda.
A morte de Juscelino Kubitschek na Via Dutra, em 1976, está prestes a completar 50 anos. À época tratada como um acidente comum, o caso foi reaberto pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) em meio à pressão por justiça de transição. Agora, um relatório elaborado pela historiadora e relatora do colegiado, Maria Cecília Adão, aponta que o ex-presidente foi, na verdade, vítima de um atentado político orquestrado pelo regime militar, reacendendo um debate histórico que mobiliza versões opostas sobre o episódio.
Contrariando o que foi concluído à época e respaldado em 2014 pela Comissão Nacional da Verdade, o novo parecer contesta a tese de que o Opala em que JK viajava teria se acidentado . Para embasar sua conclusão, a relatora apontou a ausência de indícios de uma primeira colisão com um ônibus, citou um inquérito do Ministério Público Federal que aponta inconsistências na versão do acidente e somou-se a conclusões semelhantes das comissões estaduais da Verdade de São Paulo e de Minas Gerais. Com mais de 5 mil páginas, o documento deverá ser analisado pelos demais conselheiros da CEMDP, com forte expectativa de aprovação por parte do colegiado.
Caso o relatório seja oficialmente endossado, a Comissão reconhecerá que a morte do ex-presidente foi causada por ação direta do Estado brasileiro. Criada com base na Lei nº 9.140, de 1995, no governo de Fernando Henrique Cardoso, a CEMDP — reinstalada em 2024 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva após ter sido extinta no final do governo de Jair Bolsonaro — tem a finalidade de reconhecer mortes e desaparecimentos decorrentes de perseguição política durante a ditadura militar (1961-1988), e a revisão do caso JK se alinha a esse objetivo de reparação histórica.
Além disso, o caso não é isolado no contexto sul-americano, e sua revisão evidencia uma tendência regional de investigar violações de direitos humanos ocorridas durante as ditaduras do século XX. Recentemente, no Chile, peritos concluíram que o poeta Pablo Neruda foi envenenado por agentes do Estado, apenas 12 dias após o golpe de 1973. Na Argentina, o pianista brasileiro Francisco Tenório Júnior, conhecido como Tenorinho, foi identificado 49 anos após ser sequestrado e morto durante a repressão que antecedeu a ditadura no país. O músico, que estava em turnê com Vinicius de Moraes e Toquinho, desapareceu em 18 de março de 1976 e foi encontrado com marcas de tortura.
A expectativa é que o reconhecimento oficial do assassinato de JK possa influenciar a maneira como a história da ditadura militar é lembrada e ensinada, cumprindo um papel fundamental na busca por verdade e justiça. Segundo a CEMDP, não há prazo de validade para a análise de fatos com tamanha repercussão histórica
Por Paraíba Master