Lei Seca completa quase duas décadas, mas mortes ligadas ao álcool no trânsito voltam a subir no Brasil
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Apesar de uma queda acumulada de 19,5% na taxa de mortes no trânsito associadas ao consumo de álcool entre 2010 e 2024, o Brasil voltou a registrar alta no número absoluto de vítimas no último ano, indicando uma desaceleração nos avanços obtidos desde a criação da Lei Seca.
Em 2024, foram contabilizados 13.075 óbitos relacionados à combinação de álcool e direção, um aumento de 6,2% em relação a 2023, segundo análise do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), divulgada na semana que antecede o Dia Nacional da Lei Seca, celebrado em 19 de junho.
Criada em 2008, a Lei Seca estabeleceu tolerância praticamente zero para o consumo de álcool por motoristas e é apontada como uma das legislações mais rígidas do mundo. Ao longo de quase duas décadas, a norma contribuiu para a redução da mortalidade no trânsito, mas especialistas alertam que os resultados recentes mostram perda de fôlego na trajetória de queda.
O levantamento indica ainda que, além das mortes, as consequências graves também cresceram. Em 2025, o sistema de saúde registrou 102.440 internações associadas a acidentes envolvendo álcool e direção, alta de 1,9% em relação ao ano anterior.
Homens seguem como principais vítimas
Os dados reforçam um padrão já conhecido: os homens concentram a maior parte das ocorrências. Em 2024, eles responderam por 86,7% das mortes atribuíveis ao álcool no trânsito e por 81,8% das internações relacionadas.
Para o CISA, políticas de prevenção mais direcionadas ao público masculino são essenciais para conter novos aumentos. Especialistas também apontam que fatores comportamentais ajudam a explicar a diferença, como maior propensão a comportamentos de risco e consumo excessivo de álcool entre homens.
A Organização Mundial da Saúde estima que o álcool esteja associado a 36,6% das ocorrências de trânsito envolvendo homens e 26,3% entre mulheres.
Frota de motos e fiscalização são desafios
Entre os fatores que ajudam a explicar o cenário atual estão o crescimento da frota de veículos — especialmente motocicletas —, a necessidade de reforço na fiscalização e a variação na realização de operações com bafômetros.
Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que as motocicletas estiveram presentes em cerca de 40% das mortes no trânsito em 2023, considerando ocorrências com ou sem envolvimento de álcool.
Segundo especialistas, o aumento desse tipo de veículo torna o trânsito mais complexo e exige estratégias de fiscalização mais direcionadas, com uso de inteligência para identificar áreas e comportamentos de maior risco.
Desigualdade entre estados
O estudo também revela diferenças regionais relevantes. Em 18 estados, a taxa de mortes atribuíveis ao álcool ficou acima da média nacional. Os maiores índices foram registrados em Tocantins, Piauí e Mato Grosso.
No caso das internações, 16 estados superaram a média do país, com destaque para Espírito Santo, Pará e Acre.
Os dados reforçam que o impacto do álcool no trânsito varia significativamente entre as regiões, o que, segundo especialistas, exige políticas públicas adaptadas às realidades locais.
Evidências reforçam necessidade de ações combinadas
Uma pesquisa internacional publicada em 2026, com dados de 165 países, indica que a redução dos limites legais de álcool no sangue, isoladamente, não é suficiente para reduzir de forma consistente a mortalidade no trânsito.
Segundo o estudo, os melhores resultados são alcançados quando a legislação é combinada com fiscalização frequente e confiável, acesso rápido a atendimento de emergência e campanhas de prevenção voltadas a grupos de maior risco.
Para pesquisadores e especialistas em segurança viária, a Lei Seca segue sendo uma ferramenta fundamental, mas seus efeitos dependem da manutenção de políticas contínuas e integradas para garantir avanços mais duradouros na redução de mortes no trânsito.
Por Paraíba Master