Mangueira leva a Amazônia Negra para a Sapucaí em enredo sobre Mestre Sacaca no Carnaval 2026
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A Estação Primeira de Mangueira vai cruzar a Marquês de Sapucaí em 2026 propondo um encontro simbólico entre o Norte e o Sudeste do país. Com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, a escola homenageia uma das figuras mais emblemáticas da cultura popular do Amapá e coloca em evidência a negritude amazônica, muitas vezes invisibilizada no imaginário nacional.
Os primeiros versos do samba-enredo já antecipam esse diálogo cultural: “Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá / Na Estação Primeira do Amapá”. A proposta, segundo o carnavalesco Sidnei França, nasceu da curiosidade despertada ao conhecer a história de Mestre Sacaca, curandeiro e líder comunitário que marcou profundamente a vida social do povo amapaense, sobretudo das populações negras e pobres.
“Eu não conhecia o Mestre Sacaca. Quando comecei a pesquisar, percebi a dimensão da importância dele para o Amapá e para a construção de uma identidade negra amazônica”, afirmou Sidnei França em entrevista.
Amazônia além do estereótipo
Durante o processo de pesquisa, a equipe da Mangueira se deparou com um conceito que norteia o desfile: o da Amazônia Negra. Dados do último Censo indicam que cerca de dois terços da população do Amapá se autodeclaram negras, o que reforça a forte presença da negritude na formação do estado.
Para o carnavalesco, essa constatação amplia o olhar sobre a região. “Existe uma visão colonizada que reduz a Amazônia apenas à floresta e à presença indígena. O enredo traz uma outra camada, que reconhece a centralidade do povo negro nesse território”, destacou.

A proposta da Mangueira, segundo ele, é lançar luz sobre uma população que historicamente ocupou um lugar marginal no cenário nacional, mesmo tendo papel fundamental na construção cultural do país.
Herança afro-indígena e saberes da cura
Mestre Sacaca dedicou sua vida ao estudo das ervas medicinais e aos saberes tradicionais aprendidos com povos negros e indígenas. Essa trajetória inspira o caráter afro-indígena do enredo. Autor de três livros sobre o uso medicinal das plantas, ele ficou conhecido pelas garrafadas, chás, infusões e unguentos usados como práticas de cura e proteção espiritual.
“O Sacaca entendia a floresta como um espaço de integração entre o homem e a natureza. Ele fez da cura um instrumento de cuidado coletivo”, explicou Sidnei França.
Além disso, o homenageado teve forte ligação com a cultura popular. Tocador de tambor de marabaixo — uma das mais importantes manifestações culturais do Amapá —, ele também participou de escolas de samba e chegou a exercer o papel de Rei Momo por mais de duas décadas.
Os encantos tucujus na avenida
Para dar forma ao enredo, a equipe da Mangueira esteve no Amapá e incorporou ao desfile o conceito de tucuju, termo usado de forma afetiva para designar quem nasce no estado. A narrativa será apresentada em cinco setores, cada um representando um “encanto tucuju” vivido por Mestre Sacaca.
O primeiro setor retrata a floresta e a região do Oiapoque, no extremo norte do Brasil. Em seguida, os rios ganham protagonismo, simbolizando os caminhos percorridos por Sacaca e a convivência entre ribeirinhos, povos indígenas e comunidades quilombolas — numerosas no estado.
O terceiro setor aborda o encanto da cura, com destaque para as ervas medicinais e os saberes tradicionais. Depois, o desfile mergulha no encanto dos tambores, reunindo expressões culturais como o marabaixo, o sairé, as escolas de samba do Amapá e a relação direta do Mestre com essas manifestações.
O encerramento será marcado pelo encanto da eternidade, propondo uma fusão simbólica entre Mestre Sacaca e a própria Amazônia, como se ambos fossem uma mesma entidade.

A voz da comunidade
A valorização das origens também se reflete nos bastidores da escola. Sob a gestão da presidente Guanayra Firmino, a Mangueira reforça a presença de integrantes formados na própria comunidade. Um exemplo é o intérprete Dowglas Diniz, que em 2026 assume oficialmente o posto de voz principal da escola.
Nascido e criado no Morro da Mangueira, Dowglas define o momento como a realização de um sonho. “É uma honra enorme representar minha escola do coração e dar continuidade a um legado que passou por nomes como Jamelão e Luizito”, afirmou.
Para enfrentar a responsabilidade, o cantor segue uma rotina intensa de preparação, com ensaios frequentes, acompanhamento fonoaudiológico, aulas de canto e apoio psicológico.
O esquenta e a emoção da avenida
Antes mesmo do início oficial do desfile, a Mangueira promete emocionar o público no tradicional esquenta, especialmente no Setor 1 da Sapucaí, conhecido pela energia vibrante das arquibancadas populares. Em 2026, os ingressos para o setor variam entre R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia).
Dowglas admite que o frio na barriga é inevitável, mas acredita que tudo se transforma quando a bateria começa a tocar. “Na hora da sirene, a gente esquece qualquer medo e canta por amor à Mangueira. É algo mágico”, disse.
Ordem dos desfiles do Grupo Especial
O desfile da Mangueira acontece no domingo, 15 de fevereiro, ao lado de Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense e Portela. O Grupo Especial se apresenta ao longo de três noites na Sapucaí, reunindo enredos que vão de homenagens a personalidades brasileiras a narrativas sobre cultura popular, religiosidade e identidade afro-brasileira.
Com Mestre Sacaca, a Verde e Rosa aposta em um enredo de forte conteúdo simbólico e político, levando para o centro do carnaval carioca a voz da Amazônia Negra.
Por Paraíba Master