Morre aos 95 anos Zuenir Ventura, escritor e jornalista que marcou o jornalismo brasileiro
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Morreu, nesta terça-feira (22), o escritor e jornalista Zuenir Ventura, aos 95 anos. A informação foi divulgada pela Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual era membro.
Considerado um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro, o mineiro, de origem humilde, buscou no exercício de outras profissões caminhos para realizar seus desejos. Ligado à Igreja, o menino de Além Paraíba, na Zona da Mata mineira, quis ser padre. No entanto, seu encontro com as letras aconteceu quando trabalhou como assistente do jornalista Carlos Lacerda, um dos principais opositores de Getúlio Vargas e figura central da política brasileira da época.
O que começou como um trabalho de assistente tornou-se, com o tempo, o ofício de Ventura. No jornal de Lacerda, o Tribuna da Imprensa assumiu o cargo de jornalista e, posteriormente, tornou-se redator e correspondente do periódico.
Com seis décadas de profissão, o menino de Minas Gerais também se aventurou como repórter e professor de Comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
No jornalismo, além da Tribuna da Imprensa, Zuenir passou por jornais e revistas de grande circulação nacional. Trabalhou na revista O Cruzeiro e foi repórter, editor de reportagem e editor de assuntos internacionais do jornal Correio da Manhã, além de atuar na revista Fatos & Fotos.
Atento às questões relacionadas aos direitos humanos, Zuenir Ventura viveu e participou ativamente de importantes momentos da história brasileira, especialmente durante os chamados anos de chumbo e o processo de abertura política, iniciado ainda durante a ditadura militar e consolidado anos depois.
A experiência deu origem a um de seus livros mais conhecidos: “1968 – O ano que não terminou”, lançado em 1988. A obra reúne relatos e histórias sobre aquele período, a partir de entrevistas e acontecimentos que marcaram um dos momentos mais turbulentos da história recente do país.
Além desse trabalho, Zuenir lançou outros livros, entre eles “Chico Mendes – Crime e Castigo”, que conta a história do assassinato do ambientalista acreano Chico Mendes (1944–1988), morto a mando de fazendeiros que o viam como uma ameaça aos interesses locais.
A obra reúne uma investigação jornalística realizada pelo escritor, que viajou ao Acre para apurar o caso a pedido de um jornal. O trabalho, iniciado em 1999, foi concluído e publicado anos depois, em 2003.
Com a dedicação às colunas semanais do jornal O Globo, Zuenir passou a ter mais tempo para se dedicar às investigações jornalísticas de maior fôlego.
Outra reportagem de grande repercussão nacional foi “Cidade partida”, publicada em livro em 1994. A obra recebeu, naquele mesmo ano, o Prêmio Jabuti, um dos mais importantes reconhecimentos do mercado editorial brasileiro.
No livro, o jornalista apresenta um Rio de Janeiro marcado por fortes barreiras socioeconômicas. Para escrevê-lo, visitou diversas vezes a comunidade de Vigário Geral, localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde policiais haviam promovido uma chacina que matou 21 pessoas inocentes no ano anterior.
Zuenir dá voz aos moradores da comunidade e mostra também o crescimento do movimento de organizações da sociedade civil contra a violência.
Na Academia Brasileira de Letras (ABL), Zuenir Ventura ocupou a Cadeira 32, para a qual foi eleito em 30 de outubro de 2014, sucedendo o escritor paraibano Ariano Suassuna. A posse ocorreu em 6 de março de 2015, quando foi recebido pela acadêmica Cleonice Berardinelli.
Durante sua passagem pela Academia, Zuenir manteve a atuação como cronista e escritor, levando para a instituição a experiência acumulada em mais de seis décadas de jornalismo. Sua trajetória na ABL representou também o reconhecimento de um profissional que ajudou a aproximar o jornalismo da literatura e a registrar, por meio de reportagens, livros e crônicas, diferentes momentos da história brasileira.
Com a morte de Zuenir Ventura, aos 95 anos, a Cadeira 32 perde seu sétimo ocupante.
Por Paraíba Master