Vulnerabilidade social impacta altura e peso de crianças indígenas e Nordestinas, aponta estudo
- 19 de fevereiro de 2026
Fernando Frazão/Agência Brasil
Um levantamento com base em dados de cerca de 6 milhões de crianças brasileiras revela que desigualdades sociais continuam influenciando o crescimento infantil no país. A pesquisa, que contou com especialistas do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz da Bahia (Cidacs/Fiocruz Bahia), identificou que crianças indígenas e aquelas que vivem em estados do Norte e do Nordeste apresentam, em média, estatura inferior à registrada em outras regiões e abaixo dos parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O estudo analisou informações de crianças acompanhadas desde o nascimento até os 9 anos de idade, a partir de registros do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). A partir do cruzamento desses dados, os pesquisadores avaliaram peso, altura e indicadores nutricionais com base nas curvas de crescimento adotadas internacionalmente.
De acordo com o pesquisador Gustavo Velasquez, do Cidacs/Fiocruz Bahia e líder da investigação, os resultados não significam que todas as crianças indígenas ou do Norte e Nordeste sejam classificadas como de baixa estatura, mas indicam uma proporção maior de casos nessas populações.
Entre os fatores associados ao crescimento abaixo do esperado estão dificuldades no acesso aos serviços de saúde, insegurança alimentar, maior incidência de doenças, condições ambientais precárias e menor renda familiar. Esses elementos, segundo os pesquisadores, reforçam o papel das desigualdades estruturais no desenvolvimento infantil.
Ao mesmo tempo, o levantamento aponta outro desafio: o excesso de peso. Aproximadamente 30% das crianças avaliadas apresentam sobrepeso ou estão próximas dessa condição. O dado mostra que viver em contexto de vulnerabilidade não protege contra a obesidade — ao contrário, pode expor a criança a fatores que prejudicam um desenvolvimento equilibrado.
Diferenças regionais no excesso de peso
O estudo também mediu a prevalência de sobrepeso e obesidade nas diferentes regiões do país, com base no Índice de Massa Corporal (IMC). Os resultados indicam percentuais mais elevados no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Confira os dados por região:
-
Norte: 20% de sobrepeso e 7,3% de obesidade
-
Nordeste: 24% de sobrepeso e 10,3% de obesidade
-
Centro-Oeste: 28,1% de sobrepeso e 13,9% de obesidade
-
Sudeste: 26,6% de sobrepeso e 11,7% de obesidade
-
Sul: 32,6% de sobrepeso e 14,4% de obesidade
Segundo Velasquez, não há, de forma geral, um cenário de subnutrição no país. Em média, as crianças brasileiras acompanham os padrões internacionais de altura. O alerta, porém, está no ganho de peso acima do recomendado em determinadas localidades.
“Observamos que o crescimento linear está adequado, mas o peso começa a ultrapassar o que seria considerado ideal em algumas regiões”, explicou o pesquisador.
Ele destaca que o risco de obesidade pode estar relacionado às condições em que a criança nasce, o que evidencia a importância do acompanhamento pré-natal e da atenção básica à saúde nos primeiros anos de vida. A qualidade da alimentação também aparece como fator determinante, especialmente diante do aumento no consumo de alimentos ultraprocessados.
O estudo foi publicado em 22 de janeiro de 2026 na revista científica internacional JAMA Network e recebeu comentários de pesquisadores estrangeiros na mesma edição. Embora o Brasil enfrente crescimento nos índices de excesso de peso infantil, especialistas internacionais avaliam que o país ainda ocupa posição intermediária na América Latina. Nações como Chile, Peru e Argentina apresentam índices mais elevados de obesidade infantil.