Quase 190 mil alunos têm trajeto escolar afetado por violência armada no Rio de Janeiro, aponta estudo
Um levantamento divulgado nesta quinta-feira (26) revela que a violência armada tem impactado diretamente o acesso à educação no Rio de Janeiro. Segundo o estudo “Percursos interrompidos”, cerca de 188 mil estudantes da rede municipal tiveram dificuldades para chegar à escola entre janeiro de 2023 e julho de 2025 devido a interrupções no transporte público.
A pesquisa foi desenvolvida pelo UNICEF, pelo Instituto Fogo Cruzado e pelo GENI/UFF. Ao todo, foram contabilizadas 2.228 ocorrências que afetaram a circulação de ônibus, trens, metrô e BRT na cidade.
Os dados mostram que o problema é recorrente. Em 2023, foram 786 interrupções; em 2024, o número subiu para 852; e, até julho de 2025, já eram 590 registros. Em média, cada episódio durou cerca de sete horas — tempo suficiente para comprometer um dia letivo inteiro.
Quando as ocorrências acontecem em dias de aula e no horário escolar, o impacto se intensifica. Nesses casos, a duração média ultrapassa oito horas, prejudicando tanto a ida quanto o retorno dos estudantes.
Violência afeta quase toda a rede
O estudo aponta que a grande maioria das escolas municipais foi atingida de alguma forma. Das mais de 4 mil unidades em funcionamento, cerca de 95% registraram ao menos uma interrupção no transporte nas proximidades.
Entre as principais causas estão barricadas (32,4%), operações policiais (22,7%), manifestações (12,9%), ações criminosas (9,6%) e tiroteios (7,2%).
Para especialistas, o cenário torna o deslocamento imprevisível, especialmente em áreas mais vulneráveis. “Em alguns territórios, a incerteza passou a fazer parte da rotina, criando obstáculos contínuos ao acesso à educação”, avalia a pesquisadora Carolina Grillo, do GENI/UFF.
Desigualdade territorial
O impacto não é uniforme. A concentração de interrupções é maior em bairros das zonas Norte e Oeste, como Penha, Bangu e Jacarepaguá, que lideram o número de registros.
Na Penha, por exemplo, o acúmulo de ocorrências resultou em cerca de 176 dias sem circulação de transporte ao longo do período analisado.
A pesquisa também classificou o nível de risco das escolas. Embora a maioria dos alunos esteja em unidades consideradas de baixo risco, aproximadamente 25,8% das matrículas estão em escolas com níveis moderado, alto ou muito alto de exposição às interrupções.
Um grupo reduzido de 120 escolas — menos de 3% do total — concentra os casos mais graves, sobretudo na zona Norte.
Recomendações
Entre as medidas sugeridas pelo estudo estão a integração de dados em tempo real sobre mobilidade e violência, a criação de rotas alternativas em áreas críticas e o fortalecimento de políticas públicas voltadas à prevenção.
Também é defendida a ampliação de apoio pedagógico e psicossocial para estudantes e profissionais afetados.
Respostas oficiais
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação informou que, apenas em 2025, 590 escolas precisaram ser fechadas ao menos uma vez devido a operações policiais ou confrontos armados. A pasta afirma que adota estratégias como reforço escolar, videoaulas e planos de recuperação para minimizar prejuízos.
Já o governo do estado declarou não comentar os dados do estudo por não conhecer a metodologia utilizada. A gestão destacou, no entanto, a Operação Barricada Zero, iniciada em 2025, que já retirou milhares de bloqueios em vias públicas, com o objetivo de restabelecer a circulação nas comunidades.
O estado também afirmou que operações policiais seguem protocolos para preservar a segurança de estudantes e profissionais da educação, incluindo comunicação prévia às redes de ensino.
Por Paraíba Master