Delegados da PF relatam a Mendonça pressão após mensagens envolvendo Moraes e Vorcaro
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Delegados da Polícia Federal que atuam na investigação envolvendo o Banco Master relataram ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que passaram a se sentir pressionados após a divulgação de mensagens atribuídas ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, e ao ministro Alexandre de Moraes.
Os relatos, divulgados nesta segunda-feira (14), apontam que os investigadores temiam ser alvo de medidas no chamado inquérito das fake news caso produzissem documentos mencionando Moraes ou se novas informações da apuração chegassem à imprensa. Pelo menos cinco pessoas com conhecimento do episódio relataram os fatos sob condição de anonimato.
Um dos delegados conversou por videochamada com Mendonça em 7 de março de 2026. No dia seguinte, integrantes da equipe de investigação enviaram ao gabinete do ministro um HD lacrado e criptografado contendo uma cópia dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro.
Reunião na Polícia Federal
O clima de apreensão teria aumentado depois de uma reunião realizada na manhã de 7 de março entre os responsáveis pela investigação e Dennis Cali, chefe da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor) da Polícia Federal. Seis pessoas participaram do encontro, segundo os relatos.
Cali teria destacado a repercussão provocada pelos vazamentos por envolverem um ministro do Supremo. Ainda conforme os investigadores ouvidos, o diretor orientou a equipe a não produzir relatórios que mencionassem Moraes sem uma determinação judicial.
A justificativa apresentada teria sido a de que a Polícia Federal não poderia investigar um ministro do STF sem autorização da própria Corte.
Segundo os relatos, Cali também teria determinado que eventual material que estivesse sendo preparado e fizesse referência a Moraes fosse retirado. Durante a conversa, o diretor teria mencionado episódios anteriores envolvendo integrantes do Supremo, incluindo reações da Corte a informações produzidas pela Polícia Federal relacionadas ao ministro Dias Toffoli.
Também teriam sido citados desdobramentos do inquérito das fake news relacionados a vazamentos de informações da Receita Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Delegado procurou o gabinete de Mendonça
Depois da reunião, um dos delegados procurou um auxiliar de André Mendonça e relatou as orientações que teria recebido dentro da PF. O investigador também manifestou preocupação com a possibilidade de ser alvo de uma investigação no inquérito das fake news.
Posteriormente, o delegado conversou diretamente com Mendonça, que é o relator no STF dos processos relacionados ao caso Master.
De acordo com os relatos, o ministro sugeriu que os investigadores formalizassem ao gabinete a situação que afirmavam estar enfrentando. Os delegados, no entanto, teriam recusado a ideia por receio de possíveis consequências ou retaliações.
Foi nesse contexto que surgiu a possibilidade de enviar ao gabinete de Mendonça uma cópia dos dados extraídos do celular de Vorcaro. A iniciativa teria como objetivo preservar o material obtido durante a investigação.
O envio de uma cópia desse tipo diretamente a um ministro do Supremo, porém, não é considerado um procedimento usual em investigações policiais.
HD foi entregue sob sigilo
O material chegou ao gabinete de Mendonça às 10h07 de 8 de março, um domingo. Os arquivos foram criptografados e armazenados em um HD lacrado, protegido por senha.
Mendonça informou ao presidente do STF, Edson Fachin, que não acessou o conteúdo. Segundo o ministro, o dispositivo continua lacrado e permanece em seu gabinete.
Há, contudo, versões diferentes sobre como ocorreu a entrega.
Pessoas próximas a Mendonça e parte dos investigadores afirmam que os próprios delegados decidiram encaminhar o material espontaneamente. Já integrantes da cúpula da Polícia Federal e um dos delegados envolvidos sustentam que o gabinete do ministro teria solicitado os dados durante uma ligação.
Um registro interno da PF indica que os arquivos foram extraídos do celular de Vorcaro às 8h40 de 8 de março, “conforme acordado” entre um agente e um dos delegados responsáveis pela investigação.
O documento não afirma que a extração ou o encaminhamento tenham ocorrido por determinação de Mendonça. O ofício enviado ao gabinete também não explica as circunstâncias que motivaram o envio.
O documento informa apenas que o HD continha a extração dos dados do celular de Daniel Bueno Vorcaro, formalizada por meio do Laudo nº 4281/2026-SETEC/SR/PF/SP.
Uma semana depois, porém, um novo registro foi inserido no sistema da Polícia Federal. O documento, anexado às 4h58 de 14 de março pelo delegado responsável pela entrega, afirma que o material foi encaminhado “mediante solicitação do Gabinete do Ministro André Mendonça”.
Divulgação das mensagens antecedeu reunião
A sequência de acontecimentos teve início após uma reportagem publicada pela jornalista Malu Gaspar, em O Globo, em 6 de março. A publicação relatou que Daniel Vorcaro havia trocado mensagens com Alexandre de Moraes no mesmo dia em que o empresário foi preso.
Horas depois, Moraes divulgou uma nota negando que as mensagens atribuídas a Vorcaro correspondessem a conversas mantidas com seus contatos.
O ministro afirmou que uma análise técnica dos dados telemáticos do empresário, divulgados pela CPMI do INSS, havia indicado que as mensagens de visualização única enviadas por Vorcaro em 17 de novembro de 2025 não correspondiam aos contatos de Moraes nos arquivos apreendidos.
Na manhã seguinte, ocorreu a reunião entre Dennis Cali e os delegados responsáveis pelo caso Master. Depois do encontro, um dos investigadores procurou o gabinete de Mendonça.
Mendonça pede explicações
Diante das versões conflitantes sobre a entrega do HD, André Mendonça pediu, no domingo (13), que Edson Fachin determine a oitiva dos delegados envolvidos para esclarecer as circunstâncias do episódio.
O ministro quer obter informações sobre as condições e o contexto em que o material foi encaminhado ao gabinete, além de esclarecimentos sobre possíveis constrangimentos que os investigadores teriam enfrentado durante a apuração.
Disputa aumenta tensão no STF
A controvérsia ocorre em meio ao aumento da tensão dentro do Supremo em torno dos desdobramentos do caso Master.
Edson Fachin decidiu, no sábado (12), que o plenário do STF não analisaria conjuntamente os pedidos relacionados a Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Nesta terça-feira (15), a Corte deve analisar o relatório da Polícia Federal sobre mais de 50 mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro a Moraes.
Fachin também marcou para 23 de setembro a análise das questões relacionadas à atuação de Mendonça nos casos Master e INSS.
Em outra decisão, o presidente do STF havia suspendido a determinação de Mendonça que previa o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e de Leandro Almada da chefia da Diretoria de Inteligência Policial da corporação.
Fachin afirmou que seria necessário analisar os relatórios da PF encaminhados a Moraes. Posteriormente, o ministro Flávio Dino determinou o retorno dos dois dirigentes aos cargos.
Com a decisão de Fachin, tomada no dia 9, as determinações anunciadas por Dino e Mendonça foram derrubadas.
Contrato e cartões do Banco Master
No início de setembro, Mendonça retirou o sigilo de parte dos documentos produzidos pela Polícia Federal sobre as mensagens envolvendo Moraes e Vorcaro.
Entre os materiais estavam informações sobre um contrato de R$ 131 milhões firmado pelo Banco Master com o escritório Barci de Moraes, pertencente à advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Os documentos também mencionaram cartões de crédito vinculados ao Master destinados a filhos de Moraes, com limites que poderiam chegar a R$ 300 mil.
Após a divulgação das informações, Moraes encaminhou a Fachin relatórios da Polícia Federal que, segundo ele, apontariam “fortes indícios” de possíveis irregularidades na condução das operações Sem Desconto e Compliance Zero por parte de Mendonça.
A troca de acusações ampliou o embate no Supremo. Em meio à disputa, Mendonça encaminhou a Fachin um pedido para o afastamento de Alexandre de Moraes.
Por Paraíba Master