Mocidade leva Rita Lee à Sapucaí em enredo que mistura rock, samba e liberdade
Foto: Divulgação
A irreverência e o espírito contestador de Rita Lee (1947–2023) vão ecoar na Marquês de Sapucaí no Carnaval do Rio de Janeiro. A cantora e compositora paulista, consagrada como a Rainha do Rock Brasileiro, é o enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, que apresenta o desfile “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”.
A proposta da escola é celebrar a trajetória da artista que desafiou padrões e transitou com naturalidade entre gêneros musicais aparentemente opostos, como o rock e o samba. A escolha dialoga com a própria obra de Rita, que nunca se limitou a rótulos e fez da mistura uma marca autoral.
A sinopse apresentada pela Mocidade convida simbolicamente a cantora a ocupar o “templo do samba”, exaltando suas letras afiadas, bem-humoradas e libertárias. Para a escola, Rita representou um “sopro libertário” na música brasileira, usando o deboche e a ousadia para provocar transformações culturais profundas.
Embora associada ao rock, Rita Lee manteve uma relação próxima com o samba ao longo da carreira. Gravou clássicos como Samba do Arnesto, de Adoniran Barbosa, ao lado dos Demônios da Garoa, interpretou canções de Lamartine Babo e compôs sambas em parceria com Roberto de Carvalho. Também flertou com o carnaval ao criar marchinhas e ao homenagear Carmem Miranda em gravações cheias de humor.
Esses elementos reforçam, segundo a escola, a pertinência do enredo. Para o coreógrafo da comissão de frente, Marcelo Misailidis, a artista reunia características que dialogam diretamente com o universo do carnaval. “Ela tinha uma postura crítica, lucidez e atenção às questões essenciais do seu tempo”, afirmou. Para ele, os desfiles das escolas de samba funcionam como grandes óperas populares, capazes de absorver múltiplas linguagens artísticas.
A escolha de Rita Lee como tema foi anunciada em 22 de maio do ano passado, data dedicada a Santa Rita de Cássia, conhecida como a santa das causas impossíveis — uma coincidência simbólica que reforçou o conceito do desfile. O projeto é assinado pelo carnavalesco Renato Lage, responsável por quatro títulos do Grupo Especial, três deles pela própria Mocidade.
Após a apresentação de 13 sambas concorrentes, a escola definiu como vencedor o samba-enredo composto por um grupo de autores liderado por Jeffinho Rodrigues e Xande de Pilares. A letra destaca a valorização da diferença e da quebra de padrões. O intérprete oficial será Igor Vianna, que estreia na escola seguindo os passos do pai, Ney Vianna, histórico cantor da agremiação.
A Mocidade será a primeira escola a desfilar na segunda noite do Grupo Especial, na segunda-feira de carnaval. Dono de seis títulos, o último conquistado em 2017, o tradicional grêmio da Zona Oeste promete levar à avenida um tributo que une música, liberdade e atitude.
O músico Roberto de Carvalho, companheiro de vida e de obra de Rita Lee, confirmou presença no desfile ao lado da família. Em visita à quadra da escola durante os preparativos, ele manifestou entusiasmo com o projeto e desejou que o desfile reflita o astral que sentiu ao acompanhar o trabalho da comunidade da Mocidade.

Por Paraíba Master