MPF aponta que ditadura queimou corpos de camponeses em usinas de açúcar na Paraíba
O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública contra a União e o Estado da Paraíba por graves violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar. A denúncia sustenta que trabalhadores rurais e integrantes das Ligas Camponesas foram perseguidos, torturados, assassinados e tiveram os corpos destruídos em fornalhas de usinas de açúcar para eliminar provas dos crimes.
Segundo a ação, os episódios ocorreram entre 1964 e 1981, período em que órgãos de repressão do Estado teriam atuado em conjunto com grupos ligados ao latifúndio para combater o movimento camponês na Paraíba. O MPF afirma que militares, policiais e proprietários rurais formaram uma estrutura de perseguição política contra lideranças que defendiam reforma agrária e melhores condições de vida no campo.
Entre os casos citados estão os desaparecimentos de João Alfredo Dias, conhecido como “Nego Fuba”, e Pedro Inácio de Araújo, o “Pedro Fazendeiro”. Ambos são apontados como algumas das primeiras vítimas de desaparecimento político da ditadura no Brasil. De acordo com a investigação, existem testemunhos que indicam que os dois foram executados e tiveram os corpos incinerados em usinas da região para impedir qualquer identificação posterior.
A ação menciona relatos atribuídos a um ex-integrante da Polícia Militar que teria revelado a utilização de usinas açucareiras para ocultação dos corpos. As suspeitas envolvem unidades como as usinas São João e Santa Helena, citadas nos documentos apresentados pelo MPF.
O órgão também pede a responsabilização póstuma de autoridades militares apontadas como responsáveis pelas operações repressivas na Paraíba, além da adoção de medidas de reparação histórica. Entre elas estão a abertura de arquivos da ditadura, pedidos oficiais de desculpas às famílias das vítimas, a criação de uma força-tarefa para localizar desaparecidos políticos e a inclusão da história das Ligas Camponesas no ensino público paraibano.
O caso ganhou repercussão nacional por apresentar novas evidências sobre a atuação da repressão no Nordeste durante o regime militar e por indicar que métodos utilizados para ocultar cadáveres de opositores políticos podem ter ocorrido também na Paraíba.
A Advocacia-Geral da União informou que foi intimada da ação e está reunindo informações sobre o caso. Já o Governo da Paraíba declarou que ainda não havia sido oficialmente notificado quando a denúncia veio a público.
Por Paraíba Master