Eleições colocam futuro do Cerrado no centro de mobilização de organizações e comunidades
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Movimento reúne povos tradicionais, lideranças indígenas e especialistas para defender políticas públicas voltadas à preservação do bioma e aos direitos das populações que vivem em seus territórios
A preservação do Cerrado e a relação entre as escolhas eleitorais e o futuro do bioma foram tema de um webinário realizado nesta quarta-feira (9) pela iniciativa Vote pelo Cerrado. O encontro reuniu representantes de povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações socioambientais para discutir a influência da política sobre questões como segurança hídrica, produção de alimentos, mudanças climáticas e proteção dos territórios.
A mobilização é conduzida por uma coalizão formada pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, Fundação Pró-Natureza (Funatura), Instituto Cerrados, Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) e Rede Cerrado. A atividade integra a programação da semana dedicada ao Dia Nacional do Cerrado, celebrado em 11 de setembro.
Durante o debate, a pescadora artesanal Ana Ilda Pavão, integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP) e da coordenação executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, destacou a dificuldade enfrentada por comunidades que procuram candidatos para apresentar suas demandas e, muitas vezes, não obtêm respostas.
Para ela, o período eleitoral deve ser aproveitado para ampliar a cobrança sobre os compromissos assumidos pelos candidatos. Ana defendeu uma mobilização mais intensa da sociedade, especialmente entre os jovens, diante dos impactos que as decisões tomadas atualmente terão sobre o futuro do bioma e das populações que dependem dele.
Povos indígenas querem ampliar participação política
O coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e liderança do povo Tuxá, Dinaman Tuxá, classificou o atual cenário político como resultado de uma crise que ultrapassa a questão ambiental e atinge a própria organização da sociedade.
Segundo ele, o avanço de políticas contrárias aos direitos indígenas fez com que os povos originários passassem a buscar maior presença nos espaços onde são tomadas decisões políticas. A estratégia, afirmou, deve continuar independentemente do calendário eleitoral.
Tuxá também chamou atenção para um efeito provocado por medidas de proteção da Amazônia. Na avaliação dele, a redução da pressão sobre determinadas áreas daquele bioma pode deslocar parte da expansão agropecuária para o Cerrado, aumentando a pressão sobre territórios indígenas e comunidades tradicionais.
A saída, segundo a liderança, passa pelo fortalecimento da representação política desses grupos. Em vez de apenas reagir às decisões tomadas por setores econômicos organizados, os povos precisam ampliar sua participação institucional e ocupar os espaços de poder.
Representação no Congresso é alvo de críticas
A composição do Congresso Nacional também esteve entre os principais pontos discutidos no webinário. Letícia Camargo, coordenadora de Advocacy da Funatura, afirmou que a representação parlamentar ainda é predominantemente formada por homens brancos ligados a interesses empresariais, com forte presença de representantes do agronegócio.
De acordo com ela, o número de parlamentares efetivamente comprometidos com a defesa dos direitos das comunidades tradicionais e com a agenda ambiental ainda é reduzido. Essa diferença de força política interfere diretamente na tramitação e na aprovação de propostas relacionadas à proteção do Cerrado.
Letícia ponderou que a questão não está na representação de setores econômicos no Parlamento, mas no desequilíbrio entre interesses privados e direitos coletivos. Temas como reforma agrária, conservação ambiental e criação de unidades de conservação, segundo sua análise, encontram dificuldades para conquistar apoio suficiente no Legislativo.
“Reflorestar” o Congresso
Presidente do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), Samuel Caetano relacionou o resultado das próximas eleições à capacidade de o país enfrentar os desafios atuais da democracia e da proteção ambiental.
Geraizeiro, Caetano avaliou que a composição do Senado merece atenção especial, principalmente diante do papel da Casa em processos políticos envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Ele demonstrou preocupação com os resultados das últimas eleições municipais e com os possíveis reflexos sobre a formação do Congresso. Para o representante, a ausência de parlamentares comprometidos com a proteção ambiental pode acelerar a fragmentação do Cerrado e ampliar a disputa política pela ocupação e destinação das terras do bioma.
Na avaliação de Caetano, defender o Cerrado significa também defender o acesso à água e a permanência das comunidades tradicionais em seus territórios. Por isso, ele defendeu um processo de renovação política que chamou de “reflorestar” o Congresso.
Crises podem abrir espaço para mudanças
Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), encerrou a rodada de debates destacando a complexidade do momento vivido pelo país.
Para ela, embora o cenário seja marcado por diferentes crises, períodos de instabilidade também podem servir para rever caminhos, produzir aprendizados e construir novas respostas para os problemas enfrentados pela sociedade.
A discussão reforçou a avaliação dos participantes de que as eleições não devem ser analisadas apenas sob a perspectiva partidária, mas também a partir dos impactos que as escolhas políticas produzem sobre os territórios, os recursos naturais e as populações que dependem diretamente deles.
Campanha completa dez anos
A semana também marca os dez anos de atuação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Para celebrar a trajetória, a organização promove nesta quinta-feira (10), às 19h, uma transmissão com representantes de diferentes regiões do bioma.
Participam do encontro Isolete Wichinieski, da Comissão Pastoral da Terra (CPT); Raimunda Nonata, da Comunidade Quilombola Cocalinho, no Maranhão; Antônio Veríssimo, do povo Apinajé, no Tocantins; Rosalva Gomes, artesã e quebradeira de coco babaçu do Maranhão; Ariomara Alves, do Coletivo dos Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado, no Piauí; e Alciléia Torres, comunicadora da Campanha.
A programação também antecede uma nova etapa da iniciativa Vote pelo Cerrado. A partir desta sexta-feira (11), quando é celebrado o Dia Nacional do Cerrado, deverá ser disponibilizada no site da campanha a relação
Por Paraíba Master