30 de setembro de 2026
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Inclusão digital pela metade: acesso à internet cresce, mas desigualdade limita oportunidades no Brasil

 Inclusão digital pela metade: acesso à internet cresce, mas desigualdade limita oportunidades no Brasil

Foto: Reprodução

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Enquanto abriga um dos maiores polos de tecnologia e inovação do Brasil, o Recife Antigo também concentra uma realidade marcada pela desigualdade digital. Separada do Porto Digital apenas pela Rua do Moinho, a comunidade do Pilar convive diariamente com a falta de acesso adequado à internet, equipamentos tecnológicos e oportunidades de formação, cenário que evidencia os desafios da inclusão digital no país.

Para a líder comunitária Ana Cláudia Miguel, a distância entre os dois lados da rua vai muito além da geografia. Ela compara a desigualdade atual ao antigo muro construído pelos holandeses no século XVII, demolido há mais de um século, mas que, segundo ela, permanece simbolicamente.

“A gente mora dentro de um polo tecnológico, mas continua vivendo um déficit de tecnologia”, afirma.

A comunidade do Pilar surgiu com a ocupação das ruínas do Recife Antigo por famílias sem moradia. Hoje, reúne cerca de 600 residências. Levantamento realizado em 2023 pelos próprios moradores, com apoio da Universidade das Nações Unidas, mostra que 73% da população é negra, 76% dos lares são chefiados por mulheres e 74% das famílias dependem do trabalho informal. A renda média não ultrapassa um salário mínimo e meio.

Do outro lado da via está o Porto Digital, ecossistema que reúne mais de 500 empresas de tecnologia e movimentou R$ 7,4 bilhões em 2025. O presidente da instituição, Pierre Lucena, destaca que o complexo concentra incubadoras, aceleradoras, uma faculdade própria e parcerias com universidades, consolidando-se como uma das principais plataformas de inovação do país.

Inclusão digital ainda é desigual

Embora o acesso à internet tenha avançado no Brasil, especialistas alertam que a qualidade desse acesso ainda é um problema. Dados da PNAD-TIC 2026, do IBGE, indicam que 90,5% da população utilizou a internet em 2025. Entretanto, cerca de 10,7% dos domicílios dependem exclusivamente da internet móvel, enquanto 59,2% não possuem computador ou tablet.

A advogada e especialista em telecomunicações e direitos digitais Flávia Lefrève explica que muitas famílias deixam de contratar banda larga fixa devido ao custo e acabam utilizando planos de telefonia com franquias limitadas de dados.

Segundo ela, quando o pacote de dados se esgota, muitas operadoras interrompem o acesso à internet, prática que considera incompatível com as garantias previstas no Marco Civil da Internet. Na avaliação da especialista, essa limitação compromete o acesso a serviços públicos, educação, trabalho e outros direitos que hoje dependem da conexão digital.

Universidade sem computador

No Pilar, o impacto dessa realidade é percebido também no ensino superior. Desde 2023, moradores da comunidade podem ingressar em cursos de graduação por meio do programa Pilar Universitário, que oferece bolsas integrais nas faculdades do Senac.

Apesar da gratuidade, muitos estudantes encontram dificuldades para permanecer nos cursos por falta de equipamentos e acesso adequado à internet.

Foi o caso de Eurídize Lima de Santana, de 23 anos. Ela ingressou em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, mas interrompeu a graduação após um ano e meio por não possuir notebook.

Segundo a estudante, as disciplinas mais avançadas exigiam programação e desenvolvimento de códigos, atividades inviáveis apenas pelo celular. Sem condições financeiras para comprar um computador, estimado em cerca de R$ 3,5 mil, decidiu trancar o curso.

Hoje, Eurídize cursa Gestão Financeira na modalidade de ensino a distância, utilizando apenas o telefone celular e um plano de internet móvel, além de pagar mensalidade de R$ 170.

Para Ana Cláudia, a situação é comum entre os moradores da comunidade. Ela ressalta que, embora o Pilar esteja cercado por empresas de tecnologia, crianças e jovens da região permanecem distantes desse universo por falta de acesso à internet nas escolas e de iniciativas voltadas à formação tecnológica.

Contraste chama atenção até dentro do Porto Digital

A desigualdade entre o Porto Digital e o Pilar também é percebida por quem trabalha no polo tecnológico.

Fabi Andrade, coordenadora de ESG do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), conta que o projeto arquitetônico do Complexo do Moinho previa uma parede para esconder a comunidade. A proposta foi substituída por uma fachada de vidro, justamente para manter visível o contraste entre os dois cenários.

Segundo ela, a proximidade entre os dois espaços provoca reflexões, especialmente pelo fato de uma instituição voltada à educação tecnológica não contar com estudantes oriundos da comunidade vizinha.

O presidente do Porto Digital reconhece que existe uma dívida social e admite que ainda são necessárias ações mais estruturadas para aproximar o polo tecnológico da população do entorno.

Jovens sem oportunidades

Na avaliação da liderança comunitária, a ausência de inclusão digital também afeta diretamente as perspectivas dos jovens.

Ana Cláudia afirma que a falta de acesso à tecnologia e à qualificação profissional reduz as oportunidades de inserção no mercado de trabalho e pode contribuir para que parte da juventude seja atraída pela criminalidade.

Debate sobre neutralidade da internet

Outro ponto levantado por especialistas é o modelo de franquias de dados oferecido pelas operadoras. Flávia Lefrève afirma que muitos consumidores, após o esgotamento do pacote de internet, conseguem acessar apenas aplicativos como WhatsApp, Facebook e Instagram.

Ela argumenta que essa prática fere o princípio da neutralidade da rede previsto no Marco Civil da Internet, já que privilegia determinados serviços em detrimento de outros, restringindo o acesso pleno à internet principalmente entre usuários de menor renda.

Em 2023, a Coalizão Direitos na Rede protocolou um processo administrativo na Secretaria Nacional do Consumidor, vinculada ao Ministério da Justiça, questionando tanto o bloqueio do acesso à internet após o fim da franquia quanto a oferta de planos que limitam o uso a determinados aplicativos. Até o momento citado na reportagem, não havia posicionamento oficial sobre o andamento da ação.

Por Paraíba Master

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