4 de outubro de 2026
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Especialistas alertam que flexibilização das regras para armas nos EUA pode fortalecer facções criminosas no Brasil

 Especialistas alertam que flexibilização das regras para armas nos EUA pode fortalecer facções criminosas no Brasil

Foto: Reprodução

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As mudanças propostas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para flexibilizar a comercialização de armas de fogo têm gerado preocupação entre especialistas em segurança pública brasileiros. A avaliação é de que a redução dos controles sobre a venda de armamentos poderá ampliar o fluxo de armas ilegais para organizações criminosas que atuam no Brasil.

O pacote apresentado pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) reúne 34 medidas que alteram regras atualmente em vigor. Entre elas estão a autorização para compra de armas pelos Correios, a diminuição do período obrigatório de armazenamento dos registros de vendas pelos comerciantes e a flexibilização na checagem dos antecedentes criminais dos compradores.

Pesquisadores destacam que os Estados Unidos já ocupam posição de destaque como origem de armas utilizadas por grupos criminosos em diferentes regiões do mundo. No México, cerca de 80% das armas apreendidas com cartéis do narcotráfico têm procedência norte-americana. No Haiti, estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que a maior parte do armamento empregado por gangues que dominam grande parte de Porto Príncipe também chega dos EUA.

Levantamento baseado em dados do próprio ATF e divulgado pela Universidade de Harvard mostra que, entre 2018 e 2022, aproximadamente 73% das armas de fogo apreendidas em países do Caribe eram de origem norte-americana.

No Brasil, um estudo publicado na revista científica Journal of Illicit Economies and Development identificou que, entre cerca de 1,7 mil fuzis ilegais apreendidos na Região Sudeste entre 2019 e 2023, 54% foram fabricados nos Estados Unidos. O trabalho foi desenvolvido pelos pesquisadores Bruno Langeani e Natalia Pllachi.

Para Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, a flexibilização das regras nos EUA tende a facilitar o acesso das facções criminosas brasileiras a esse tipo de armamento. Segundo ele, um dos principais desafios está na comercialização de peças semiprontas, que podem ser adquiridas com pouca fiscalização e posteriormente montadas.

O pesquisador explica que componentes de armas costumam ser enviados desmontados por encomendas internacionais, o que dificulta sua identificação durante a fiscalização alfandegária. Como não se trata de um armamento completo, a detecção exige equipamentos adequados e profissionais treinados para reconhecer essas peças.

Além dos fuzis, estudos indicam que, entre as armas de estilo militar apreendidas na Região Sudeste, os principais países de origem são o próprio Brasil, seguido pelos Estados Unidos, Alemanha e Bélgica. Os autores da pesquisa, entretanto, ressaltam que ainda existem limitações na identificação da origem de grande parte das armas apreendidas, o que dificulta um diagnóstico mais preciso sobre o tráfico internacional.

O cientista social Robson Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV/Uerj), afirma que o forte lobby da indústria armamentista norte-americana influencia iniciativas voltadas à redução dos mecanismos de controle sobre a venda de armas.

Na avaliação do pesquisador, o aumento da oferta e a maior facilidade para aquisição de armamentos nos Estados Unidos podem ampliar o desvio dessas armas para mercados ilegais em outros países, incluindo o Brasil.

Outra medida do governo norte-americano que desperta preocupação foi a revogação, em setembro de 2025, de restrições para exportação de armas de fogo destinadas a 36 países. Entre eles estão Paraguai, Colômbia, Suriname, Bolívia e Peru, nações próximas ao território brasileiro e que já enfrentam problemas relacionados ao tráfico internacional de armas.

Na ocasião, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos afirmou que a mudança permitiria ampliar a competitividade dos fabricantes norte-americanos no mercado internacional, estimando a geração de centenas de milhões de dólares em novas oportunidades de exportação.

Para Bruno Langeani, a redução das avaliações de risco nas exportações aumenta a possibilidade de que parte desse armamento seja desviada para organizações criminosas.

Robson Rodrigues também chama atenção para o que considera uma contradição na política norte-americana. Enquanto o governo Trump afirma intensificar o combate aos cartéis latino-americanos, adota medidas que, segundo especialistas, podem facilitar o acesso dessas organizações às armas produzidas nos Estados Unidos.

O pesquisador defende que o enfrentamento ao crime organizado exige ações integradas, envolvendo tanto o combate à produção e ao tráfico de drogas quanto medidas voltadas à redução da demanda e ao combate à lavagem de dinheiro em países consumidores.

Na avaliação dos especialistas, políticas mais rigorosas de controle sobre a circulação de armas seriam fundamentais para dificultar o fortalecimento de grupos criminosos na América Latina.

Dados da Associação Comercial da Indústria de Armas de Fogo (NSSF) mostram que, entre 2008 e 2024, o setor armamentista dos Estados Unidos registrou crescimento expressivo. Nesse período, o faturamento da indústria aumentou 379%, alcançando US$ 91,7 bilhões, enquanto o número de empregos no segmento cresceu 130%, chegando a aproximadamente 382 mil trabalhadores.

Por Paraíba Master

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